Notas do Editor

Tecnologia para uma saúde melhor

O sistema brasileiro de saúde já usa tecnologias para se tornar mais eficiente e menos caro aos cofres públicos, mas ainda tem um longo caminho a percorrer

Por Edson Perin

19 de maio de 2014 - Tenho acompanhado o setor de saúde pública do Brasil e visto algumas coisas de fora do país também. De um modo geral, há no Brasil uma busca crescente por avanços especialmente com o uso de novas tecnologias destinadas a melhorar a qualidade e a segurança dos atendimentos aos pacientes. Há muitos casos de sucesso no mundo e estamos perseguindo o que existe de melhor. Mas, como ocorre com frequência em todos os campos, nem sempre há acertos em nossas estratégias. Embora haja muito trabalho sério, talvez o desconhecimento sobre novas tecnologias ainda nos colocam para trilhar caminhos tortuosos.

Entre os grandes acertos do país estão os investimentos em sistemas para agilizar a marcação de consultas, dinamizar a criação de prontuários, armazenar registros de pacientes e também na compra de equipamentos, por exemplo, diretamente relacionados a exames médicos de alto nível. Quanto à identificação por radiofrequência (RFID), embora já seja uma realidade nas instituições privadas de saúde do país (veja, por exemplo, o caso do Hospital Albert Einstein: Einstein usa RFID para rastreamento de ativos), ainda não é uma realidade nos hospitais públicos brasileiros.

Edson Perin, editor do RFID Journal Brasil
Na semana passada, fui dar uma palestra na Empresa Brasileira de Hemoderivados e Biotecnologia (Hemobrás), em Recife (PE), cuja missão é tornar o Brasil independente da importação de produtos derivados de sangue e de biotecnologia. Uma meta espetacular! Fiquei positivamente surpreso, pois a companhia está desenvolvendo tecnologia RFID para rastrear estoques de sangue, derivados e outros produtos sensíveis. Por isso, fui chamado por eles: para falar sobre o uso de RFID em vários segmentos, incluindo o setor de saúde no Brasil e no mundo. O projeto ainda está em avaliação, mas, se implantado, dará ao país uma segurança enorme na qualidade dos produtos hemoderivados e de biotecnologia, além de nos abrir portas para exportar os sistemas que forem desenvolvidos.

A Hemobrás é uma estatal vinculada ao Ministério da Saúde e trabalha com a produção de medicamentos essenciais à vida de pessoas com hemofilia, além de portadores de imunodeficiência genética, cirrose, câncer, Aids e queimados. Com sede em Brasília e filial no Recife, a Hemobrás tem papel estratégico para o Sistema Único de Saúde (SUS).

O que a Hemobrás está fazendo é um exemplo de atualidade em relação ao uso de RFID e também em comparação com o que se faz em países desenvolvidos. Por outro lado, estamos introduzindo no Brasil um método para rastrear medicamentos – e isto não tem nada a ver com a equipe de Tecnologia de Informação (TI) da Hemobrás, infelizmente –, que está baseado em códigos parecidos com os de barras (Datamatrix 2D). Já há estudos que mostram que os códigos de barras são aparentemente menos custosos, porque não usam tags (mais caras do que barras pintadas a tinta em embalagens), mas operacionalmente custam muito mais do que a RFID, pois demandam leituras manuais, item por item, o que demora mais e induz a erros.

Isto é um contraste brutal entre estratégias e visões: de um lado uma empresa como a Hemobrás, realizando um trabalho de alto nível e focado em uma estratégia de longo prazo com a RFID; mas de outro o rastreamento de remédios sendo feito da maneira mais custosa e menos eficiente, após anos de evolução tecnológica.

Diante disso, pergunto: por que não fazer logo todo o sistema de rastreamento de medicamentos com RFID, como em outros países – inclusive da América Latina (Rede de farmácias colombiana utiliza RFID e biometria para impedir falsificação de remédios) –, planejando, assim, com vistas para o longo prazo? E, ainda, estaríamos prestigiando outros investimentos do país, como o que foi feito na Ceitec, a nossa fábrica estatal de semicondutores, que faz chips de RFID.

Edson Perin é editor do RFID Journal Brasil e fundador da Netpress Editora.

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